A arte de fazer ruínas- uma leitura psicanalítica.

Nas frestas do tempo, entre o que se ergue e o que desmorona, algo escapa. Nem tudo se apresenta no que é visível; somos feitos também de fundações soterradas, estruturas invisíveis que retornam ao presente. O conto “A Arte de Fazer Ruínas”, de Antônio José Ponte, apresenta a exploração de uma arquitetura do esquecimento ou apagamento. Uma narrativa que se desenrola como uma sessão de análise, onde o protagonista escava e encontra os escombros da própria linguagem do inconsciente.

A jornada se inicia com um gesto inusitado, a compra de um bode. Movido por um impulso que ele mesmo não compreende, o protagonista adquire o animal em um ato inaugural que manifesta o desejo, já que não é uma necessidade e nem escolha racional e sim um movimento que aponta para uma falta. O bode, inútil e estranho, não serve para nada, e justamente por isso se torna o primeiro objeto em que ele tenta preencher, em vão, suas lacunas. É o significante de uma busca que ainda não tem nome, o primeiro passo no labirinto do seu próprio desejo, um desejo que, como ele logo descobrirá, não é inteiramente seu.

No decorrer da narrativa, o protagonista sai da arquitetura do lar e se aventura pelas ruas da cidade, indo e vindo através do movimento dos transeuntes que se deslocam em ritmo descontrolado, nas calçadas e também pelo Metrô. E neste movimento, acontece o reencontro com o antigo orientador e a retomada de uma busca antiga por um saber, o acadêmico. Entre encontros e escombros que surgem, um legado enigmático é deixado: um livro, uma herança que é, ao mesmo tempo, mapa e armadilha. Este livro poderia ser compreendido como o que Lacan chamaria de demanda do Outro. O Outro que ocupa o lugar da linguagem, da cultura e da lei que nos atravessa e nos forma, é o discurso que chega pela cultura, pela cidade e, neste caso, também pelo mestre. O orientador, ao deixar o livro, não materializa um conhecimento, mas uma pergunta: “Decifra-me”. Ele lança o protagonista em uma busca que não se origina nele mesmo, mas no desejo enigmático deste Outro.

O conto, desde seu início, nos diz que há algo que não se sabe e insiste, uma verdade tão potente que sua única forma de existência é através de seus rastros. Os mecanismos que Freud identificou no trabalho dos sonhos, como a condensação e o deslocamento, são trazidos na teoria lacaniana, como a metáfora e a metonímia. O inconsciente é estruturado como uma linguagem, então o que está soterrado, não é um mero entulho, mas uma cadeia de significantes que se desloca, se condensa e opera como figuras pela própria linguagem, segundo suas próprias leis.

A busca no conto pode ser pensada como um percurso metonímico. Ele desliza de uma pista a outra, de um fragmento a outro. Temos um livro, um nome, uma ruína, a história de uma morte. O que o incita a encontrar sentido e caminhar, de significante em significante. Ele não deixa explícito o que busca, mas segue os rastros deixados pelos tantos outros.

Enquanto isso, as próprias ruínas funcionam como metáforas. Uma ruína é a condensação de múltiplas histórias em um único objeto. Pedras silenciosas já foram uma casa, as pessoas que ali viveram, o evento que a destruiu, o tempo que passou. É a substituição de um significante por outro. Como a história latente no conto de uma Cuba abandonada pela utopia revolucionária que se expressa como metáfora, assim como o sintoma em psicanálise.  E o que são as ruínas de Ponte senão os sintomas de uma cidade, as formações do inconsciente de uma cultura que tentou apagar sua própria história?

Este apagamento é central e materializado no conto pelas mortes dos personagens, que levam consigo pedaços do arquivo e os fragmentos de alguma verdade. O conhecimento se torna um quebra-cabeça com peças faltando e a tarefa se assemelha cada vez mais a do analista. E é neste contexto que as moedas, espalhadas como oferendas se apresentam também como significantes carregados de valor simbólico. Elas são deixadas nos locais de memória, marcando os pontos onde a história foi interrompida, onde o discurso se calou. Para o protagonista, as moedas não são um pagamento, mas apontam para uma oculta cidade subterrânea. Elas são a materialização do retorno do que foi recalcado, pequenos objetos que emergem da escuridão, insistindo que algo ali aconteceu.

No final, o conto nos deixa com a sensação de que a busca nunca termina, pois o inconsciente é inesgotável. Como na análise, não chegamos a uma resposta final sobre o que o Outro quer, mas talvez a uma nova relação com esta pergunta. O protagonista, sem nome, se mistura a própria ruína. Ora analista, ora sujeito submetido a uma análise. Ele precisou ler e escrever a cidade, e a si mesmo, não através das linhas de uma dissertação de mestrado, mas através de novas histórias escritas sobre as antigas.

O que me fez pensar que talvez a arte de fazer ruínas seja também a arte de habitar ruínas, dentro e fora, em cima e embaixo e ainda assim, buscar algum nome e sentido que nos faça emergir sobre a falta, que nunca cessa em se anunciar.

REFERÊNCIAS

PONTE, Antonio José. Uma arte de fazer ruínas. In: ANDRADE, Ana Luiza; BARROS, Rodrigo Lopes de; CAPELA, Carlos Eduardo Schmidt (org.). Runologias: ensaios sobre destroços do presente. Florianópolis: EdUFSC, 2016.

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