Ansiedade na contemporaneidade: uma perspectiva psicanalítica.

O coração acelera, em taquicardia o corpo parece não responder aos comandos, algo externo se tornou muito ameaçador, mas o corpo tão íntimo amigo, também ameaça. Por vezes, uma sensação de irrealidade, em outras, mais amenas, vemos um pé excessivamente no futuro. A ansiedade, que muitas vezes integra quadros depressivos e se confunde ao diagnóstico da depressão, tornou-se uma das condições mais prevalentes e discutidas. Em um mundo que exige constante produtividade, conexão e performance, o mal-estar psíquico se manifesta de diversas formas, e a psicanálise oferece uma lente profunda para compreender as dinâmicas desse fenômeno. Longe de ser apenas um sintoma isolado, a ansiedade se revela  como um complexo entrelaçamento entre a subjetividade individual e as pressões culturais contemporâneas.

O Mal-Estar na Cultura 

Sigmund Freud, em sua obra “O Mal-Estar na Civilização” apontava para a tensão inerente entre as exigências da cultura e os desejos individuais, o que leva a um sofrimento psíquico inescapável. Muitos autores contemporâneos aprofundam essa discussão, mostrando como a forma de adoecer e sofrer psiquicamente está intrinsecamente ligada às organizações estruturais da cultura em que o sujeito está inserido. A ansiedade, nesse contexto, não se apresenta como uma falha individual, mas um reflexo das demandas de uma sociedade que valoriza o excesso, a intensidade e a performance a todo custo.

Joel Birman, por exemplo, destaca a “dor de existir” e o desamparo como elementos centrais na experiência da ansiedade contemporânea. Ele sugere que a ansiedade atual é frequentemente um excesso pulsional que não encontra representação psíquica, o que leva o sujeito a um estado de desorganização e angústia.

A Sociedade do desempenho

Byung-Chul Han, em suas análises sobre a “Sociedade do Cansaço” e a “Sociedade do Desempenho”, argumenta que a ansiedade moderna está intrinsecamente ligada à auto exigência e ao excesso de positividade. Em vez de sermos explorados por outros, nos tornamos auto exploradores.  Essa pressão interna e externa para ser sempre produtivo e feliz gera um esgotamento que se manifesta como ansiedade e depressão.

Christian Dunker, um dos maiores nomes da psicanálise brasileira, reforça essa ideia ao afirmar que “a forma como a gente vive hoje é ansiogênica e depressiva”. Ele descreve a ansiedade como uma disposição adaptativa que, em excesso, se torna patológica. A constante necessidade de atenção, foco e prontidão para reagir, imposta pela “economia da atenção” do mundo digital, transforma a ansiedade em uma atmosfera de expectativa permanente. A cultura da métrica e do feedback constante, onde tudo é avaliado e medido, cria um sentimento de inadequação e déficit, o que favorece os quadros ansiosos e depressivos.

Ansiedade e angústia

É fundamental, na psicanálise, distinguir entre ansiedade e angústia. Enquanto a ansiedade é um termo mais abrangente e muitas vezes associado a sintomas físicos e psicológicos descritivos (comumente utilizados na psiquiatria), a angústia (do alemão Angst) é um afeto fundamental que, para Freud, funciona como um sinal de perigo psíquico. A angústia, em sua essência, é um afeto que não engana e indica um confronto do sujeito com algo que o ameaça, muitas vezes relacionado à perda ou à castração simbólica. Na contemporaneidade, a ansiedade pode ser vista como uma manifestação desse desamparo fundamental diante de um mundo que exige excesso de performance e nega o tempo do sujeito para elaborar suas experiências.

A análise como saída

Pela via da escuta de si e da elaboração, uma análise permite que o sujeito se desloque da posição de objeto de avaliação e passe a se escutar, a escutar o que move o seu desejo para além das exigências sociais. É um processo que visa a uma transformação subjetiva, de forma que se possa encontrar um sentido mais autêntico para sua existência, para além das pressões externas e das expectativas de performance. A supressão isolada da ansiedade não impedirá que haja um deslocamento deste sintoma, não raro isto é observado na clínica. Um deslocamento destes sintomas, muitas vezes pelo uso de medicamentos ou práticas paliativas, sem as elaborações que permitam uma aprofundamento sobre suas raízes. Por sua vez, o acompanhamento psicanalítico carrega como proposta a transformação da ansiedade, de um sintoma paralisante em um sinal que poderá guiar o sujeito em direção ao seu desejo e à construção de uma postura mais autônoma diante da vida e de seus relacionamentos.

Referências

Birman, J. (2012). O sujeito na contemporaneidade. Civilização Brasileira.

Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Vozes.

Dunker, C. (2025). “A forma como a gente vive hoje é ansiogênica e depressiva”, diz Christian Dunker. em entrevista ao jornal Popular.

Freud, S. (1930/2025). O mal-estar na cultura. São Paulo: Cia das Letras (nova edição 2025).

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